domingo, 20 de agosto de 2017

Se você quer um mundo melhor, comece pela sua casa!

Há cerca de três anos, com o início da Operação Lava Jato, vozes antes inaudíveis no país começaram a ecoar em todos os meios de comunicação. A população brasileira (a massa) passou a se inteirar melhor sobre assuntos que até então nos causavam ânsia de vômito e muita preguiça. Eu quase nunca ouvia alguém falar sobre economia e política e, de repente, este passou a ser tema de conversas nos pontos de ônibus, nas festas de aniversário, durante um passeio ao parque e, até mesmo, nas baladas de sexta-feira. Era como se uma escultura muito antiga começasse a descascar revelando sua verdadeira aparência.

Eu, que passei a adolescência ao modo maluco beleza de ser, era a legítima cidadã alienada. Meu caminho até os 28 anos foi cheio de utopias e ideias mirabolantes acerca da fé, da paz e da injustiça no mundo. Sempre gostei de estudar Ciências Humanas e, inclusive, me graduei em Geografia. Mas depois de 12 anos na escola e mais 4 na faculdade, continuei com conceitos completamente distorcidos sobre quase tudo.

Eu cultivava uma visão romântica acerca das mazelas da humanidade e acreditava que poderiam existir indivíduos capazes de mudar o rumo da história. Foi justamente por isso que escolhi ser professora: eu achava que poderia mudar o mundo.

Quando comecei a sair do universo da fantasia e caí de paraquedas na realidade nua e crua, minhas utopias começaram a ruir. Uma sala de aula não é algo nada romântico. E a vida não é um palco onde podemos subir para dar o nosso show. A não ser que seja um show de horrores.

Quando eu passei a ser autodidata é que finalmente comecei a entender algumas coisas. E esse "bum" que aconteceu na política brasileira, explodindo o esconderijo dos ratos e obrigando-os a sair da toca, foi essencial para o meu amadurecimento intelectual. Comecei a ler mais, textos de autores diferentes, de fontes distintas, com influências político-filosóficas antagônicas. Comecei a assistir aulas na internet, frequentei um curso sensacional de teologia, mergulhei de cabeça nas estantes de livros de filosofia, teologia e romances clássicos.

Meio que desalienei, pelo menos uns 60%. Isso a meu ver já é bom. Na verdade é muito bom. Quando desembaçamos o para-brisas fica mais fácil enxergar a estrada e conduzir o veículo em direção ao destino que escolhemos como alvo.

Meu repertório aumentou absurdamente e parei de acreditar em um monte de bobagens que eu acreditava piamente serem verdade. Pelo menos agora será mais difícil de eu ser usada como marionete para alguma causa escusa.

Mas, porém, entretanto, todavia, contudo, descobri algo terrível: eu não posso mudar o mundo. Nem eu, nem ser humano nenhum. Para mudar o mundo, o poder teria de se concentrar em minhas mãos. Para o poder se concentrar em minhas mãos, precisaria ser uma ditadora, e para ser ditadora precisaria usar a violência. Quando usamos a violência, o mundo se torna pior. E isso resume a ópera da utopia de sociedade justa.

Quem é "a sociedade"? Falamos "sociedade" como se fosse algum ser com vida própria. Como se "a sociedade" fosse algo externo a nós. Está ali, olha lá a "sociedade", apontamos com o dedo. TUDO BOBAGEM!

A sociedade somos nós. Eu e você que me lê. É fácil desejar uma "sociedade justa" enquanto eu ignoro o mendigo passando fome na esquina da minha casa. É fácil ansiar por um "mundo melhor", enquanto dentro do meu lar trato mal a minha mãe, sou agressiva com meus irmãos, sou desaforada com o meu pai, sou egoísta com meu marido, oprimo os meus filhos. Participo de uma passeata contra a corrupção, mas dou o cano a torto e a direito, preocupando-me em me dar bem a qualquer custo. Encho a boca para falar mal do imperialismo estadounidense, mas quando vou à padaria na rua de cima, olho com desdém para meus vizinhos e finjo que não os vi, só para não ter de cumprimentar. Coloco textos gigantescos no Facebook expressando minha indignação, ansiando por curtidas e compartilhamentos, mas ao primeiro colega que comenta algo que não concordo, me torno hostil e o rotulo de todos os adjetivos toscos que vierem na cabeça. A liberdade de expressão só vale quando todo mundo concorda comigo?

Me expliquem que ideia de sociedade justa e mundo melhor é essa que faz com que nos importemos com os que estão longe e esqueçamos dos que estão perto?

C. S. Lewis fala sobre isso ao dar o exemplo da guerra. Durante o conflito, os exércitos ingleses e alemães se odiavam e se digladiavam. No entanto, esse era um ódio mítico. Quando se está em uma guerra, se odeia um inimigo imaginário. Na verdade, os soldados rivais nunca se encontraram face a face para dizer que se odiavam de uma maneira pessoal. Lewis diz que "os ingleses declaravam em alto e bom som que a tortura seria pouco para seus inimigos, mas logo ofereciam chá e cigarros ao primeiro piloto alemão ferido que porventura batesse à porta dos fundos".
Eu me identifiquei nesse trecho. Quantas vezes odiei as pessoas que militam por causas que eu abomino? Quantas vezes desejei que essas pessoas fossem desmascaradas e presas? Contudo, se qualquer uma delas bater em minha porta pedindo um copo de água fria, certamente eu jamais negaria. Odiar é ruim? É evidente que sim. Mas esse é um ódio mítico. Assim como desejar um mundo mais justo e pacífico é uma benevolência mítica. Enquanto amo e tenho compaixão pelas pessoas de um círculo mais distante, esqueço os da minha própria casa.

Em "Cartas de um Diabo a Seu Aprendiz", um demônio mestre ensina a seguinte estratégia ao demônio aprendiz: "O que quer que você faça, sempre haverá alguma benevolência, assim como alguma raiva, na alma humana. O melhor a fazer é voltar a raiva da pessoa para os semelhantes mais próximos, aqueles que ela encontra todos os dias, e voltar a benevolência para um círculo mais distante, para as pessoas que ela não conhece. Desse modo, o ódio torna-se completamente real e a benevolência, em grande medida, imaginária". No final ele conclui: "Nem mesmo todas as virtudes pintadas pela fantasia ou aprovadas pelo intelecto, ou até, em alguma medida, adoradas e admiradas, serão suficientes para afastar um homem do inferno".

Forte isso? É para ser mesmo. Para deixar esse gosto amargo que você está sentindo na boca . Se você quer um mundo melhor, comece pela sua casa!

Para que as virtudes ajudem a nos tornarmos seres humanos melhores, mais justos, honestos, benevolentes, e, consequentemente, produzam uma sociedade mais justa e um mundo melhor, elas precisam parar de ocupar apenas o campo da imaginação e do intelecto. Precisam ocupar o campo da vontade, o verdadeiro centro de nosso ser que é o coração. Precisam ser praticadas com as pessoas que nos cercam e se materializarem como hábitos.

Talvez aqui seja bom relembrar um mandamento que todo mundo sabe de cor, mas que quase ninguém sabe como colocar em prática: "ame o teu próximo como a ti mesmo". 
Nesse caso, não é o amor afetuoso e apaixonado. É um amor bem maior. Deixarei você pensar sobre isso. Talvez eu fale sobre esse amor em outro post. Mas acho que você deve desconfiar sobre que tipo de amor estou me referindo.

Referências:
C. S. Lewis. Cartas de um Diabo a Seu Aprendiz. São Paulo: Martins Fontes, 2014.



     

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A Decepção é uma Coisa Boa

C. S. Lewis é o meu escritor favorito ever e o livro dele “Cartas de um Diabo a seu Aprendiz” é meu livro favorito no mundo. Eu sei, o título é cabuloso. E acreditem, o livro é mais cabuloso ainda. Esse é um daqueles livros que a cada parágrafo sentimos como que um tapa na cara e um soco no estômago. É um livro para se ter na cabeceira e ler e reler dezenas de vezes, talvez centenas. Se eu fosse fazer um resumo das frases que mais me impactaram, praticamente transcreveria o livro para este post. É o tipo de livro para se ler com o Twitter aberto.

Logo no capítulo 2 o leitor é esbofeteado com o seguinte trecho:
“Deus¹ permite que a decepção aconteça no limiar de todo empreendimento humano. Ela acontece quando o menino que ficava encantado no maternal com as histórias da Odisséia²  começa a estudar seriamente a língua grega. Acontece quando recém-casados dão início à missão de aprender a viver juntos. Em todas as instâncias da vida, essa decepção marca a transição da aspiração sonhadora para a ação laboriosa”.
Não sei de vocês, mas isso tem sido o lema da minha vida.
É claro que desde criança sofremos várias decepções, pequeninas e gigantescas. Isso é normal. Ninguém consegue tudo que quer, do jeito que quer e fica feliz exatamente como imaginou. Quanto maior a expectativa, maior o tombo.
No entanto, nos últimos anos, eu venho colecionando algumas decepções épicas que, de tão reincidentes, me fizeram parar para perguntar: Será que Deus está querendo me ensinar algo com tudo isso?
Resolvi parar de me lamentar e embolei a frustração como se embola uma folha de papel em que estava escrito um poema medíocre. Joguei na lata do lixo (só que não, na verdade guardei na gaveta) e coloquei uma folha em branco na máquina de escrever. Comecei a ler histórias e poemas melhores que os meus. Histórias como a de Jó, de Salomão e as escritas por C. S. Lewis. Essas histórias e poemas me fizeram perceber que eu me tinha em alta conta e me julgava um suprassumo de ser humano.
Eu queria ser a amiga querida, a neta mais amada, a aluna elogiada, a cristã correta, a professora admirada, a escritora super lida, enfim, queria me destacar. Entendam, eu não sou do tipo de mulher que quer ser melhor do que todo mundo e está disposta a subir na cabeça das pessoas para chegar ao topo. Até porque sou preguiçosa demais para isso. O fato é que sempre que alguém se destacava de alguma maneira, minha luzinha vermelha da autoestima se acendia, a gratidão por tudo o que Deus já me deu desaparecia e no lugar surgia a frustração. Sempre que eu me desapontava com algo ou alguém, ficava com um nó na cabeça, um gosto amargo na boca e um peso insuportável no coração.
Caramba, isso é horrível. Só quem sente ou já se sentiu assim sabe do que estou falando. Quando os pensamentos e emoções negativos te controlam a ponto de você se sentir um lixo. Aí você pensa: “Eu não faço mal a ninguém, sou uma pessoa boazinha, por que isso acontece só comigo? Coitadinha de mim…” Reparem no destaque para a palavra só. O ego fica tão inflado que chegamos a pensar que somos os únicos a ter decepções. Meu Deus, obrigada por sua paciência e misericórdia. Se fosse outro pai já tinha me dado um puxão de orelha bem violento para eu ficar esperta. Mas Deus não é assim, Ele é bondoso, é justo, é severo quando preciso, mas nunca sem a presença do amor.
E então, nas minhas buscas por respostas e por práticas que me ajudassem a lidar com as decepções, encontro esse trecho-tapa-na-cara do C. S. Lewis. E por incrível que pareça,  falado através da boca de um diabo (que é o narrador da história): “Deus permite que a decepção aconteça no limiar de todo empreendimento humano. (…) Em todas as instâncias da vida, essa decepção marca a transição da aspiração sonhadora para a ação laboriosa”.
Caraca! Putzgrila! Caramba! Puxa vida! Foram essas palavras que me vieram à mente e a vontade: “caramba, preciso twittar isso!” Sim, Ana, twitte isso. Mas não só pelo celular. Twitte isso no seu coração também. Lembre-se disso quando seu trabalho te decepcionar, quando um sonho realizado não for aquela Brastemp que você imaginava, quando seu esposo te deixar louca de raiva, quando você não puder viajar para aquele lugar maravilhoso, quando receber uma crítica, quando sofrer perdas, quando um amigo se afastar sem explicação alguma, quando você descobrir que não é o suprassumo dos seres humanos.
É gente, eu precisava desse tapa na cara. Deus realmente estava querendo me ensinar algo.
“A decepção marca a transição da aspiração sonhadora para a ação laboriosa”.
É bom sonhar? Sim. As coisas caem do céu? Às vezes. Todavia, em todas as outras vezes a conquista só vem com muito trabalho e suor. Obviamente não há nada que eu tenho que não me foi dado por Deus. Reconheço isso. A honra e a glória são todas Dele. O que quero dizer é que se eu quero ser a amiga querida, preciso investir em minhas amizades, gastar tempo, ajudar quando precisam, estar mais disposta a ouvir do que falar, ser presente, amá-los como eles são. Se quero ser a neta mais amada, ok, não a mais amada pois isso seria injusto numa família cheia de netos e bisnetos, mas se eu quero ser a sobrinha, a neta, a prima, a filha amada, preciso ser amável e isso implica respeitar minha família, preocupar com cada um, orar por eles, escrever cartas e e-mails, ligar de vez em quanto, manter contato. Se eu quero ser a aluna elogiada, preciso estudar, não ter preguiça de me aperfeiçoar no que me propus a aprender, fazer tudo com excelência; se quero ser uma cristã correta devo amar a Deus, obedecê-Lo, preocupar-me mais com a vontade Dele do que com a minha; se quero ser uma professora admirada, devo respeitar meus alunos, ter boa oratória, dominar o conteúdo lecionado, me atualizar sempre; se quero ser uma escritora lida, preciso não só escrever, mas aprender a divulgar e promover o meu trabalho.
Mas há aqui algo muuuuuito importante que eu aprendi, talvez o mais importante de tudo: Pode bem ser que, mesmo se eu fizer tudo o que foi descrito no parágrafo acima, não alcance os objetivos almejados. É bem provável que, ao contrário, eu me decepcione no fim das contas e não seja tão admirada como gostaria… nem amada, nem correta, nem elogiada e muito menos me destaque. É aí que ocorre o desapontamento, a desilusão. E é exatamente aí que ocorre a transição entre a “aspiração sonhadora para a ação laboriosa”, entre a vida ideal romantizada e a vida real cheia de espinhos. Quando isso acontece, eu amadureço. Quando isso acontece, reconheço que sem Deus, “tudo é vaidade e correr atrás do vento”.
A cada decepção, fui caindo na real de que toda escolha tem consequências, de que nem sempre é possível desistir e de que o mundo não gira ao meu redor. Descobri em mim pecados e defeitos dos quais preciso me arrepender e pedir perdão diariamente. Descobri que toda bondade e justiça que há em mim, na verdade não emana de mim, mas vem de Cristo. Descobri que tudo é pela Graça. Não é pelo que eu faço, mas pelo que Cristo fez. Aprendi que eu preciso diminuir para que Ele cresça em meu coração e em minha vida. Meu ego me afasta de Deus. E ego e decepções andam de braços dados.
Aprendi a lidar totalmente com as decepções? Claro que não. Ainda estou engatinhando nesse processo. Mas, ao invés de ficar amargurada e revoltada, entendi que a decepção é uma coisa boa, pois me ajuda a preocupar mais com os planos de Deus do que com os meus, e me ensina a ser mais humilde e mais dependente do Senhor.
“O mundo não é cor de rosa e o Evangelho não é de pelúcia”, ouvi isso no curso de Teologia. As decepções nos ajudam a descobrir isso. E nos ajudam a entender que quando falamos da Cruz de Cristo, o assunto é sério. Muito sério. Sério e profundo. E, mais ainda, nos fazem compreender o tamanho do amor que Deus tem por nós. Deus é amor. Deus é o caminho, a verdade e o amor absolutos. Quando conhecemos essa Verdade, experimentamos desse Amor e trilhamos esse Caminho, as decepções diminuem e em seu lugar passamos a ser surpreendidos. Surpreendidos pela esperança, pela fé e pelo amor.

ATENÇÃO: Em breve irei migrar o blog de plataforma. Sairei do Blogger e irei para o Wordpress. Deixarei aqui o link para que vocês continuem acompanhando as postagens. Conto com vocês!
https://enquantosomosjovensblog.wordpress.com/
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¹ Deus é tratado no livro como “Inimigo”, pois o narrador é um diabo.
² Ri alto nessa parte, pois no Brasil isso passa longe. Falar de Homero para estudantes brasileiros? Nem na pós-graduação fui apresentada a essa obra. No Brasil, ou você é autodidata, ou corre sérios riscos de se tornar um analfabeto funcional. A segunda opção tem vencido nessa geração.

domingo, 23 de julho de 2017

E se Deus não quiser...

Hoje foi Domingo, dia de igreja, e a pregação do culto matutino foi justamente sobre esse tema: "E se Deus não Quiser...". (Tiago 4: 13-15)


13 Ouçam agora, vocês que dizem: 'Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro'.
14 Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa.
15 Ao invés disso, deveriam dizer: 'Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo'.


O interessante é que nesse mesmo dia fui ao cinema assistir o novo filme do meu cineasta preferido, Terrence Malick, o longa "De Canção em Canção", e a mesma mensagem estava lá: "E se Deus não Quiser...". 


Bem... não é fácil encontrar as palavras certas para traduzir o abstrato, mas eu vou tentar. 

Faye é uma musicista que sonha em ter uma carreira de sucesso. Ela deseja orgulhar a família com seu trabalho, quer ser alguém, quer se destacar. Faye vive em busca de liberdade, de experiências intensas que a façam se sentir feliz e plena. Nessa busca, os dias vão passando um a um e a vida vai escorrendo por entre os dedos. O tempo não é um bom amigo quando estamos em busca de algo que se esconde no futuro. 

Boa parte do filme é em voz off e, dentre muitas frases que alcançaram meu coração como flechas, uma delas foi quando Faye diz algo mais ou menos assim: "E se eu não alcançar o sucesso? E se eu não chegar onde desejo? E se a vida não me reservar algo extraordinário? E se eu não me tornar nada além do que já sou? Se assim for, eu não terei nenhum dos dois, nem o sonho, nem a realidade, pois terei desperdiçado o agora, por estar sempre olhando para o amanhã". 


Minha vida e a da Faye não têm muito em comum, mas nessa parte me identifiquei muito. A princípio, meu sonho era o de publicar um livro. Isso se realizou em 2014 quando publiquei a primeira versão independente de "Um Ano Bom". Desde então, o sonho cresceu, ganhou mais contornos e cores, se desdobrou em metas e deu origem a outros sonhos adjacentes. Quero publicar meus livros, quero fazer da escrita uma profissão, quero me dedicar a esse trabalho em tempo integral e quero uma carreira consolidada, com um público leitor fiel, que me acompanhe, leia e ame minhas histórias. Um público que aguarde ansiosamente pelo próximo livro, e pelo próximo, e pelo próximo... assim por diante. 

Se eu já me senti desanimada? Sim, muitas vezes. Começar a construir algo do zero nunca é fácil. Contudo, descobri que escrever é uma das coisas que eu mais amo na vida e, mesmo que eu decidisse não publicar mais nada, não iria conseguir parar de escrever. Isso faz parte da minha personalidade. Escrever não envolve apenas meus conhecimentos técnicos. Tem a ver com a minha alma, com quem eu sou. 

Hoje, no culto de manhã e durante o filme de Malick, me peguei pensando... E se Deus não quiser? E se não for para ser? E se meu sonho não se tornar realidade? Confesso que vivo todos os dias esperando o momento em que minha carreira irá decolar. Pensar que isso pode nunca acontecer é algo amedrontador e triste. Não exatamente pela fama e pelo dinheiro, esse não é o ponto. Triste porque eu quero que o mundo conheça as histórias que eu invento, eu as acho maravilhosas e quero de todo o meu coração compartilhá-las com as pessoas. Pensar que isso pode nunca acontecer parte meu coração. E aí vem a reflexão de Faye, a moça do filme: Se eu passar minha vida esperando pelo sucesso e ele não vier, terei deixado de viver o presente por estar tão concentrada no futuro. Isso é um erro. 

C. S. Lewis também fala disso em algum de seus livros, já não me recordo qual. Lewis nos lembra do verso da oração que diz "o pão nosso de cada dia dai-nos hoje". O "hoje" é a única coisa que temos. "Hoje" eu recebi a mensagem de uma leitora dizendo o quanto amou meu livro. Hoje eu abri os olhos de manhã, me levantei da cama quentinha, tomei um café gostoso, fui à igreja, passei tempo com meu esposo, assisti a um bom filme, pensei em Deus, pensei em mim, pensei na vida... Daqui a pouco vou dormir de novo e só Deus sabe o que o amanhã me reserva. Não posso viver esperando as coisas acontecerem. É como se pulássemos as páginas de um livro a fim de chegarmos depressa ao capítulo final. Não tem graça. São justamente as páginas que não damos importância que contém os detalhes mais preciosos. É por isso que, quando lemos o mesmo livro duas vezes, compreendemos muito melhor a histórias toda, enxergando as coisas simples que nos passaram despercebidas. 

A felicidade não está escondida no final do arco-íris, ela é revelada no caminho, em cada passo que damos. Assim como a luz é a origem do arco-íris, é também a Luz a origem da verdadeira felicidade. É exatamente essa Luz que eu busco quando escrevo, quando assisto aos filmes de Terrence Malick, quando vou à igreja, quando reflito sobre quem eu sou e para onde quero ir. 

"Meu coração está doente", Faye diz em algum momento no filme. Doente porque ela busca no mundo aquilo que ela só pode encontrar na eternidade. Os filmes de Malick são sobre isso, transcender. E, muitas vezes, é através da dor que conseguimos finalmente parar de olhar para nós mesmos e levantar os olhos para o céu. 

Termino com alguns versos de minha autoria, fragmentos de um poema que escrevi há muito tempo:

Em momentos de crise
Minha identidade fica abalada
Minhas qualidades são questionadas
Meu nome se torna um nome qualquer

Em momentos de Graça
Quando Tua Glória me alcança
Tenho absoluta certeza de quem sou
E nenhuma dúvida do Teu amor.

Se Deus quiser, eu serei uma escritora de sucesso, com uma carreira consolidada. Mas, se Deus não quiser, continuarei escrevendo para mim mesma, a fim de transcender, em busca da Luz que fará imortal a minha humanidade. 

terça-feira, 27 de junho de 2017

Madame Bovary e o problema do descontentamento

Nunca tinha sentido uma ressaca literária tão profunda quanto após a leitura de Madame Bovary, de Flaubert.


É um clássico e, como todo clássico que eu já li, demorei meses para terminar. A linguagem é magnífica, mas a história é densa e nem um pouco divertida. Não é uma leitura para entretenimento. Quando se lê histórias como a de Madame Bovary, o que se ganha é um conhecimento maior sobre o sofrimento humano.

Eu odiei Ema Bovary em muitos momentos. Odiei-a por causa de suas atitudes e, principalmente, porque me reconheci na protagonista. Identifiquei-me profundamente com o descontentamento no qual ela agoniza. Cada escolha de Ema tinha como objetivo alcançar a felicidade e tornar a vida menos enfadonha. Mas o novo também se torna velho e Ema voltava sempre ao mesmo estado de tristeza, ou talvez a um estado cada vez pior. As desilusões e a monotonia corroeram sua alma a ponto de levá-la odiar tudo, inclusive a si própria. A dor do existir fazia-a voltar-se apenas para si mesma, num narcisismo tal que nem a própria filha era digna de seu afeto sincero.

Odiei Ema Bovary porque ela era infeliz apesar de ser bonita e inteligente, ter um marido bondoso e fiel, uma filha saudável e doce, amigos, casa, uma vida confortável e um pai amoroso. Como alguém com tudo isso pode não ficar satisfveito e grato?
Pois é... Que atire a primeira pedra quem nunca reclamou de barriga cheia.

Se você já sentiu ao menos um quarto do vazio que Madame Bovary sentia, sabe que nem todo dinheiro do mundo, nem as maiores paixões, nem os melhores divertimentos, podem preenchê-lo. E o final de Ema é o mais terrível possível. O dela e o da família.

Pobre Ema! Queria poder salvá-la, ser-lhe amiga, ajudá-la a encontrar uma saída. Naquele tempo, provavelmente, não se tinha diagnósticos nem tratementos adequados para a depressão e suas variações. Mas, hoje isso existe e, ainda assim, muitos de nós vivem como Ema, vendo os dias passarem como reprises infindáveis, sentindo nos ombros o fardo pesado de sermos felizes e a responsabilidade de não tornar a vida de quem amamos um inferno.

Ao ler a última página fiquei pensando... é muito fácil julgar Ema Bovary como mulher leviana e ingrata. É muito fácil apedrejá-la. O que eu quero realmente saber é como Ema poderia ter sido salva.

Claro, sabemos que a Salvação pode vir apenas de Cristo. Ema conhecia a religião, mas não conhecia o Cristo. Pelo menos não como o Novo Testamento O revela. Todavia, dizer que Ema pereceu por não conhecer a Cristo, embora seja verdade, é uma resposta bem simplificada e que leva à outra pergunta mais complexa: em que consiste conhecê-Lo?

Desde o Gênesis, Deus vem se revelando como Criador, Senhor, Grande Eu Sou, e como Pai, através de seu Filho Jesus. Deus é trino, é Pai, Filho e Espírito Santo.

Deus também se revela na criação, nas Escrituras, em nosso coração. Ainda assim, é possível que não O conheçamos de fato.

Um grande filósofo disse certa vez que "Deus fez o mundo ambíguo o suficiente para crermos Nele se estivermos dispostos". O problema está no ollhar. Muitas vezes preferimos enxergar aquilo que não somos, que não temos, que não sabemos. Com toda a luz existente, ainda assim preferimos olhar para a escuridão. Com tudo o que nos foi revelado, preferimos nos exaurir desvendando os mistérios. Com toda a beleza diante de nós, preferimos olhar aquilo que está por trás de tudo até que todas as coisas se tornem transparentes (C. S. Lewis). Com toda a dádiva disponível, preferimos enxergar a privação e os limites (Guilherme de Carvalho).

Creio que esse era o caso de Ema. Ela sonhava com uma vida agitada, emocionante e prazerosa, mas, mesmo vivenciando momentos assim, nunca eram o bastante. Nada conseguia preencher o coração de Ema. E esse vazio cresceu gradativamente até que a engoliu.


Eu não sou como Ema, mas admito que me identifiquei com ela em muitos pensamentos. Poderia fazer aqui dezenas de citações, frases de Flaubert que atingiram meu peito feito lança. Me pergunto como um homem conseguiu escrever uma história que caracterizasse tão bem a angústia de uma mulher decepcionada com a vida feito Ema Bovary.

O problema dos clássicos, pelo menos os que já li, é que o mal e a dor são bem retratados, mas nunca há uma redenção. Não gosto disso. E é exatamente o contrário que tento fazer nas histórias que escrevo. Ainda que anos luz do talento de Flaubert, escrevo sobre a dor, sobre o amor, sobre o medo, e também sobre esperança e fé. Os meus protagonistas passam por um processo de amadurecimento até alcançarem a redenção.

Aprendi com Ema Bovary. A história dela me inspirou e me emocionou. E o final devastou meu coração. O fim de Ema retratou o que acontece com quem não tem fé, amor e esperança. Essas três virtudes sempre estão presentes nas histórias que publico, porque quero lembrar aos meus leitores que o bem vence no final. Não só na Literatura, como também na vida real.


terça-feira, 20 de junho de 2017

Viver é Adaptar-se - Parte 2

Viver é adaptar-se. Isso não vale só para quem é deficiente, mas para todos nós. A vida sempre nos apresenta situações novas que, em diferentes graus, nos obriga a mudar, a descobrir uma nova maneira de viver e sobreviver. 

No meu caso, dentre tantas mudanças - algumas boas, outras terríveis -, uma delas que exigiu de mim coragem e força foi a área profissional. Sempre trabalhei com coisas que eu gostava, mas nunca, nunquinha trabalhei com algo que amava. O resultado foi a frustração (já falei mais de uma vez sobre isso no blog). Foi quando em meio à crise existencial, descobri que escrever não era apenas um hobby, mas um talento. Descobri também que esse talento não deveria permanecer enterrado, mas que eu poderia desenvolvê-lo e usá-lo para o bem, meu e do meu próximo. 



Com o apoio da família e de amigos, destacando minha mãe e meu marido, comecei a investir no sonho de me tornar escritora. Dentre os diversos textos guardados, escolhi um e publiquei (Um Ano Bom). A princípio 50 exemplares, depois aumentei gradativamente. Conheci outros escritores, aprendi mais sobre o universo da literatura, comecei a participar de eventos, a visitar escolas, a ler mais literatura nacional, a fazer parcerias com blogs e ig's, enfim, a finalmente trabalhar duro em algo que amo. 

Muitas vezes, quando lecionava em sala de aula, chegava em casa decepcionada, cansada, com um sentimento ruim de desperdício de tempo, vida, energia e inteligência. Também não é objetivo deste texto dissertar sobre a carreira de professor no Brasil, que todos sabem que é pauleira. O problema muitas vezes era mais dentro de mim do que fora. O que mais me entristecia era a sensação de não-reconhecimento, como alguém que detona no The Voice e não recebe um mísero aplauso, nem mesmo de consolação. 

Salomão já dizia, "tudo é vaidade". Paulo disse, no entanto, "que tudo posso, mas nem tudo me convém". Entre os ensinamentos de Salomão e Paulo há um equilíbrio na busca pelo sucesso. Acredito que todo mundo quer ser bem-sucedido, e isso não envolve necessariamente grana, que com certeza é algo necessário e gratificante. Não se resume também à fama e glamour, o que algumas vezes deve ser bem gostoso. Para mim, ser bem-sucedido e realizado é você ter a certeza de que o seu trabalho é importante para alguém, é valorizado, faz bem para as pessoas e faz a diferença no mundo. E isso, meus amigos, tenho experimentado pela primeira vez com a literatura. 



Assim como o André, meu marido, precisou se adaptar à nova rotina, à mim, à sua condição de cadeirante, eu precisei me adaptar à nova condição de iniciante em uma carreira. Após um curso técnico, uma graduação, um mestrado e dezenas de outros cursos, voltei à estaca zero de aprendiz. 

Pasito por pasito tenho conquistado meu espaço no hall dos escritores brasileiros contemporâneos e também um espacinho no coração dos meus leitores. Claro, conto com o apoio de muitas pessoas: família, mãe, marido, amigos, escolas, professoras, colegas de profissão, minha editora, profissionais de distribuidoras e livrarias, leitores beta, meus parceiros queridos no Instagram, no Face e Blogs, meus leitores, etc. Conto principalmente com o apoio de Deus. Nada tenho que do céu não me tenha sido dado. 

Ainda estou na fase do "investir". Investir tempo, energia, dinheiro, capital cultural, vida. Mas não passa uma semana sem que eu tenha a deliciosa sensação de que meu trabalho é importante para alguém, que é valorizado, que minhas histórias e palestras fazem bem para as pessoas e que, como na história do beija-flor que tentava apagar o incêndio com a água que levava no bico, meu trabalho faz a diferença no mundo. Minhas histórias falam de amor, fé e esperança e nos fazem lembrar de que o bem sempre vence no final. 


 Aqui vai um exemplo do que estou tentando dizer: nesse mês estive duas vezes em Betim (MG), em instituições de ensino e de promoção da cultura. Um motorista veio me buscar em casa e depois me trazer de volta. Quando cheguei na Ramacrisna, fui recebida pela equipe com um bolo quentinho, recepcionada por alunos super interessados e espertos. Após um almoço com gostinho de casa de vó e de ganhar um presente de artesanato lindo, fui para o Salão do Encontro. A turma já me esperava na biblioteca ansiosa, me ouviu com atenção e olhinhos brilhando, fizeram perguntas, pediram autógrafos e fotos. Depois fui direcionada para um outro ambiente super agradável e ali me esperava um lanchinho com o melhor pão de queijo que já comi na vida. 

Ganhei de presente um "cochicho" (pergunta pro Google o que é), abraços, elogios, agradecimentos e muito, muito carinho de toda a equipe. Meus livros foram comprados para colocar nas bibliotecas das instituições e funcionários também vieram ao meu encontro para me conhecer. Imagina, uma escritora de verdade assim, tão pertinho! 

No outro dia que retornei, mais uma vez a visita ao Salão do Encontro foi linda e fui recebida com muito carinho. Depois foi a vez do Centro Popular de Cultura Frei Chico. Havia um mural com o meu nome e o nome dos livros, e mais uma turma gigantesca de alunos para me ouvir.

Não há como descrever a sensação de estar com o microfone nas mãos, tentando expressar o que de mais belo há em mim, para uma platéia que te olha nos olhos, aguça os ouvidos e ouve o que você tem a dizer. É um momento mágico quando as pessoas chegam perto para conversar, pedir um autógrafo, tirar uma foto. É de arrancar sorrisos bobos o resto do dia quando recebo uma mensagem pela internet ou uma cartinha de alguém que leu meus livros, se identificou com a história, se emocionou. Não há grana que pague isso, nem fama, nem glamour. Já fui em muitas escolas, humildes e imponentes, a sensação de felicidade é igual em todas.      

Como diz o título, viver é adaptar-se. Eu tenho tentando me adaptar a essa mudança em minha área profissional. Eu, com 32 anos, escolhi uma nova profissão e tive de iniciar da estaca zero. Todo escritor no Brasil sabe que não é fácil viver de livros. Entre a primeira publicação e a conquista de um público leitor fiel, há um vasto caminho a ser percorrido e muito investimento a ser feito. É preciso acreditar no sonho para perseverar. 



Acredito que toda profissão tenha seus perrengues e também seus momentos sublimes. A carreira de escritora não seria diferente. Mas o que me move é ter a certeza de que vale a pena. Nunca tive tanta certeza de algo em minha vida profissional como tenho agora, ou seja, de que quero que pessoas no Brasil todo e no mundo leiam as minhas histórias. E são momentos como estes que vivi em em instituições como Ramacrisna, Salão do Encontro, Centro Popular de Cultura Frei Chico, E. E. Luiz Gatti, Colégio Santa Maria Betim, E. M. Mestre Ataíde, e tantas outras, que me fazem perder o medo. São momento s assim que me ajudam a ter a coragem de continuar acreditando que o meu talento é verdadeiro e que não só eu mesma, mas outras pessoas também conseguem enxergar isso. 



Tenho me sentido realizada, importante e cheia de entusiasmo. E, depois de quase dois anos perdida no labirinto que eu sou, Deus, com sua preciosa luz e seu infinito amor me toma pela mão e me mostra mais uma vez o caminho em que devo seguir.

Agradeço a Deus e a todos vocês que me ajudam a tornar meus sonhos realidade. Muito obrigada!   






sábado, 17 de junho de 2017

Viver é Adaptar-se - Parte 1

Já falei em um post anterior - na verdade não é pensamento meu, mas que tirei dos meus estudos sobre Filosofia - "que existem circunstâncias sociais, genéticas, emocionais, intelectuais e até cósmicas sobre as quais não exercemos nenhum controle. O desafio é aprender a viver bem a partir do que somos e do que temos, aceitando aquilo que não podemos mudar e tendo coragem de mudar aquilo que podemos". Pois bem, não sei se todo mundo sabe que sou casada com um homem que é tetraplégico. O conheci já nesta condição há 16 anos, quando eu, ainda menina, me apaixonei pelo meu melhor amigo. Sim, éramos amigos a princípio, mas o relacionamento foi se tornando cada vez mais estreito, até que nos beijamos pela primeira vez em 13 de dezembro de 2001. 

De lá para cá vieram as etapas do namoro, noivado e casamento. Muita coisa aconteceu na minha vida e na dele nesses 16 anos e, pela Graça e Amor de Deus, nosso amor tem vencido e se renovado. Sim, por causa do Amor de Deus, porque não há amor nem afeição que possam existir desvinculados do amor de Deus. Sem o amor de Deus tudo se torna tormento, escravidão e vazio. 

Mas este texto não é exatamente para falar de teologia, nem especificamente dos meus amores e das minhas dores. Este texto é pra falar de superação. 



Ainda namorando o André, ele cismou certa vez de fazer autoescola para conseguir dirigir um carro adaptado. No fundo, confesso que pensei que ele não seria capaz. Fiquei com medo até, pelas limitações dele oferecerem riscos no caso dele dirigir um automóvel. Mesmo assim, concordei com a ideia e lá fomos nós fazer aula na única autoescola que, na época, tinha um veículo adaptado e automático em Belo Horizonte. Sentei-me no banco de trás com a sensação de medo. Medo por ele ficar frustrado se tudo desse errado, e medo por estar no carro com alguém dirigindo perigosamente. Hahaha, imaginava-o tentando fazer uma curva e esborrachando o carro no muro. No entanto, para a minha surpresa, já na primeira aula ele dirigiu maravilhosamente bem e, antes mesmo de completar o pacote de 10 aulas comprado, o instrutor já marcou o exame dele. O André tirou a carteira adaptada de primeira (ele já era habilitado, porém, quando se fica deficiente, é preciso passar por todo o processo de novo e fazer o exame com as adaptações necessárias). Eu e ele ficamos muito felizes. 

Esse é só um exemplo de todas as coisas que meu marido conseguiu fazer depois que o conheci. Ele saiu de uma condição de acamado quase 24 horas por dia, para uma vida ativa, semi-independente e dinâmica. Foram necessários muitas adaptações como as do carro, da casa, do estilo de vida e rotina e, principalmente, da mentalidade. Talvez o mais difícil de se adaptar a uma situação nova e/ou limitada seja a mente. O medo muitas vezes paralisa e nos impede de tentar algo novo, de sair da zona de conforto, de perder o controle total da situação, de correr riscos.




A mais recente mudança, que está me fazendo dar pulos de alegria, é que temos feito mais coisas juntos, dentre elas, viajar. Há 9 anos sempre viajávamos para a mesma cidade nas férias, o mesmo hotel, o mesmo quarto. No início era legal, pois é um lugar bem bonito, mas depois foi me cansando. Entendo que, para meu marido, ir em um lugar que já se conhece e já se sabe que tem estrutura para cadeirante, traz segurança e conforto. Mas, definitivamente, para mim, isso se tornou um saco. Diferente dele, gosto de novidades, de ir a lugares diferentes, conhecer outras paisagens, culturas, idiomas, comidas, etc... Viver novas experiências. É em situações assim que o amor precisa agir. Se eu amo meu marido, preciso compreender que não é todo lugar que ele pode ir comigo, nem tudo que eu quero é o que podemos fazer. Por outro lado, o André precisa entender que só porque ele não pode, não quer dizer que eu não posso; só porque ele não quer, não quer dizer que eu não quero. Cada um precisa ceder um pouquinho. 

Graças a Deus, ele nunca foi o tipo de homem que proíbe a esposa de fazer as coisas. Pelo contrário, sempre me apoiou quando viajava em razão do mestrado, quando viajo para as bienais e feiras de livros, quando vou visitar algum parente que mora longe. Ele mesmo já viajou com os amigos pra ver jogo do Galo em outro estado. Quanto a isso, somos bem tranquilos. A questão toda é que eu queria fazer mais coisas COM ELE. Ele entendeu isso e passamos a ir mais ao cinema, a restaurantes mais topzinhos, a fazer viagens diferentes. E foi aí que o mais legal aconteceu. Se no início o André topou sair da zona de conforto e vencer os medos para me agradar, logo em seguida ele sentiu na pele o quanto isso era bom. Ele mesmo começou a ter vontade de fazer as coisas, sem precisar de eu ficar insistindo. E isso fez muito bem a ele, a mim e a nós. Fez bem ao nosso amor.


Sim, viver é adaptar-se. Adaptar-se é sair da zona de conforto e permitir o novo. É vencer os medos, aceitar os desafios, aprender a conviver com o que não se pode mudar e ter coragem para mudar o que é possível. 

É isso o que eu e o meu marido temos feito.

Que Deus dê a você sabedoria e força para vencer. 

Descobri uma coisa com o Pastor Guilherme de Carvalho. O contrário do amor não é o ódio, nem a indiferença. O contrário do amor é o medo, porque o amor lança fora todo o medo. E Deus, o que é? Deus é amor. 


quarta-feira, 14 de junho de 2017

Gratidão

Há algum tempo eu estava insatisfeita profissionalmente. Cursei faculdade e pós-graduação acreditando que o caminho que eu tinha escolhido era bom o bastante para me fazer feliz, mas, com o tempo, a sensação de que minha vida estava passando em branco começou a me sufocar.

Acredito que muitas pessoas já passaram ou estão passando por isso, ou seja, estão vivendo uma crise em alguma área da vida que grita por mudanças. Não estou aqui para lhe dizer o que você tem de fazer, pois cada um caminha como pode. Este texto é mais um relato da minha vida, com a intenção de inspirar você e te encorajar. O fato é que existem circunstâncias sociais, genéticas, emocionais, intelectuais e até cósmicas sobre as quais não exercemos nenhum controle. O desafio é aprender a viver bem a partir do que somos e do que temos, aceitando aquilo que não podemos mudar e tendo coragem de mudar aquilo que podemos. 

No caso específico da minha profissão, muitas coisas acabaram acontecendo para que eu desse uma pausa na carreira que tinha escolhido aos 18 anos quando fiz vestibular. E aí, então, veio uma crise violenta, porque eu não sabia mais o que fazer da vida e, muito menos, o que fazer com o que eu tinha construído até ali. Por um período breve, o seguro desemprego me garantiu uma parte da renda necessária para eu pagar minhas contas. Graças a Deus e ao meu pai - que me deixou bens - não era exatamente a falta de grana que estava me deixando desesperada. O que gerou um total descontentamento em meu coração foi o fato de olhar pra mim e me sentir fracassada. Comecei a me comparar - tenho esse grave defeito - com outras mulheres e me sentir menos querida, menos amada, menos importante, menos feliz. Era como se eu tivesse vivido 30 anos da minha vida com a promessa de ser uma pessoa grandiosa, cheia de potencial, mas que no fim não havia construído nenhum legado. Eu sei, estava sendo ingrata, orgulhosa e até mesmo invejosa, e isso era horrível. Não sei explicar... Na minha mente eu sabia que tinha muitas coisas que agradecer, mas minhas emoções me puxavam para baixo, para um tipo de buraco negro, onde eu só conseguia enxergar as escolhas erradas que fiz e os meus defeitos.


Procurei ajuda obviamente, como já relatei em outros posts: psiquiatra, psicóloga, homeopatia, acupuntura, atividades físicas, leituras de teologia e filosofia e, principalmente, a oração e a Palavra de Deus. Não vou dizer que foi fácil. Foram dois anos lutando contra mim mesma, como se eu fosse minha pior inimiga. Eu me odiava e não suportava minha própria companhia. Nesses momentos de fraqueza, parece que o mal aproveita para invadir nossa alma através das frestas, nos levando a acreditar que a escuridão é melhor do que a Luz. Eu me debatia em minha própria carne, como alguém que é enterrado vivo. Nesse meio tempo, tive momentos bons e momentos terríveis. A noite durava mais do que o dia. Contudo, mesmo eu pensando seriamente em me perder como fez o filho pródigo da parábola, Deus me sustentou com Sua Graça. Como um pai que ama o filho incondicionalmente, ele me puxou para um abraço, vem enxugando minhas lágrimas, e segurando minhas mãos, como um pai segura o bebê que está (re)aprendendo a andar. Eu, que há mais de uma década conhecia a Verdade, me vi impregnada da "velha criatura" e descobri defeitos grotescos que nem imaginava ter. No entanto, Deus tem transformado o mal em bem, usando minha crise existencial para me ensinar a ser humilde, dependente Dele e a ter um coração grato. 

"Que eu não me canse de agradecer", essa tem sido minha oração. E o livro "Confissões", de Santo Agostinho, tem sido meu livro de cabeceira. É maravilhosa a forma como Agostinho relata sua conversão e o que mais me impressiona é a intimidade que esse homem tinha com Deus.


Sempre vão existir pessoas que têm problemas muito maiores que o nosso. Porém, nosso termômetro só consegue medir o tamanho da nossa dor. É impossível comparar. A dor do outro jamais nos consola. O que nos consola é saber que existe o Bem, que existe  Luz, que existe Esperança. É essa esperança que nos ajuda a perseverar e seguir em frente, rumo ao alvo. Porque, como disse Agostinho, "com efeito, não só ir ao céu, mas também atingi-lo, não são mais que o querer ir, mas um querer forte e total, não uma vontade tíbia que anda e desanda daqui para ali, que luta entre si, erguendo-se num lado e caindo no outro.


Tenha força, meu amigo. Busque a esperança em meio ao desespero. Busque o amor em meio a esse mundo cheio de ódio. Só quando admitimos que estamos perdidos, é que começamos a nos encontrar. Se permita chorar e sofrer, mas entenda que o sofrimento humano não durará para sempre. 

Grande abraço, Deus o abençoe.